quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Narguilé 2011

Juntamo-nos todos em volta daquele aparelhinho. Um cheiro forte que me lembra incenso, cheiro de laranja, toma conta da sala. Eu não quero estar em lugar nenhum.

Sabe aquela visão da água evaporando ao entrar em contato com o asfalto em dias quentes? É isso aí.

Não aceito o fumo, não quero estar em lugar nenhum, nem onde a viagem me levaria. Cheiro de laranja, sinto o perfume no ônibus, no trabalho, em casa. Peito apertado.

A conversa rola, a água evapora, a fumaça sobe. Miragem. Você sóbria ao meu lado, imagem de sobriedade, esperança.

A piteira em cada boca, alegria geral, o asfalto quente das paixões. Nossa rodovia privada, trafegamos em velocidade moderada, sempre em frente.

As xícaras de café na mesa, vazias. Os pães, as comidinhas. Passo a faca pra você, nossas mãos se tocam levemente, seu perfume me inebria de felicidade, alergia. Espirro.

Duran Duran na rádio, madrugada a dentro. De repente o frio, a cortina de fumaça desce, o cansaço bate, a piteira descança.

A farra acaba, beijos e abraços distribuidos, nossos braços unidos, apertados um ao outro. A rua na escuridão, uma névoa, somos os nossos guias.

Chegamos em casa, nos deitamos, fazemos amor em velocidade moderada, o cheiro de laranja nos envolve, viajamos juntos, sobriamente, em lugar nenhum, onde eu quero estar, pois é onde você está comigo.

A escuridão evapora, o Sol nasce, o dia esquenta, sua cabeça aperta meu peito, o café nos espera na mesa e um novo ano começa, tornando o que passou miragem.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Meu mundo e nada mais

Eu sei que tem um problema que impede que os vídeos fiquem com a tela inteira no blog, mas não tô com paciência de consertar. Aqui vai o link:

http://www.youtube.com/watch?v=LLs6yM5kz1Q

sábado, 25 de dezembro de 2010

Boardwalk Empire

Terminou a minisérie sensacional da HBO. No último episódio, Margareth descobre um segredo do passado de Nucky Thompson e diz a ele: "Existe uma bondade em você! Como você pode fazer as coisas que faz?".

Nucky responde: "Nós todos temos que decidir por nós mesmos com quanto pecado somos capazes de conviver".

Genial!



domingo, 19 de dezembro de 2010

Duas Cenas + 6:47 minutos de alegria

CENA 1- Eu tava voltando pra casa a pé, puto com algumas coisas, um rapaz no sinal pediu pra que eu comprasse um chocolate. Respondi que não de forma virulenta e ele se afastou um pouco. Fiquei parado por uns instantes esperando pra atravessar a rua e, quando consegui, voltei a andar sem deixar de me desculpar com o rapaz. Desejei-lhe bom trabalho e ele fez sinal de possitivo com a mão. Acho que essa é a única maneira de fazermos uma revolução.
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CENA 2- Desci o elevador com um entregador de mercado. Eu estava me sentindo triste e solitário, decidi ir ao cinema com meu pai pra me distrair da angústia e dei de cara com o entregador. Olhei meu relógio pra confirmar as horas e lhe dei "boa noite". Ele viu que era 7h e reclamou. "Ainda vou trabalhar até as nove". Perguntei qual era sua carga de trabalho e me explicou. "Trabalho das 8 às 8 todos os dias, incluindo Sábados e Domingos. Recebo hora extra". Fiz uma careta e ele riu. "Quem mandou ter um monte de filhos? Eu podia ter ficado morando com minha mãe e minha tia, elas queriam que eu ficasse com elas, que não casasse. Teria sido melhor, ser paparicado". Não pude deixar passar batido e lhe disse que a vida é dura pra todo mundo e que é melhor ter o que nos movimente do que sermos paparicados. "O problema é que pra mim tá duro demais", ele falou. Só tive tempo de afirmar que é a dureza que nos faz crescer, ele se despediu de mim já no portão da garagem e disse "valeu" com um sorriso carinhoso no rosto. Acho que ajudamos um ao outro.
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sábado, 18 de dezembro de 2010

Saidera

- Vamos lá, deixa eu contar mais uma antes de ir. Tá tarde, eu sei, mas é rápida. Alguém pede a saidera pra fechar a conta.

- Prestem atenção que essa é ótima. É engraçada como as outras, mas é meio bizarra também.

Eu tenho um amigo, o Roberto, nenhum de vocês conhece ele. Nós estudamos juntos no colégio, mantivemos a amizade por muito tempo depois disso. Não tenho tido notícias dele ultimamente.

O pai dele ficou doente, um câncer brabo no intestino que se espalhou depois. Todos na família ficaram desolados, o próprio Roberto ficou chocado quando soube, mas seu pai parecia não se abalar com a doença. Fez tudo que o médico recomendou. Fez quimioterapia, um monte de operações, várias mesmo. Só que mantinha aquela postura, continou trabalhando por muito tempo, fazendo suas obrigações normalmente, dentro do possível.

Isso era tão impressionante que os próprios familiares e amigos não se permitiam tocar o assunto com ele. As coisas foram caminhando, ele foi ficando mais fraco, até que foi hospitalizado de vez. Próximo do fim, recebeu várias visitas, todos tentavam manter-se inabaláveis em sua frente, como sinal de respeito.

- Chegou a cerveja e a conta, alguém calcula quanto deu pra cada um. Vou continuar.

Roberto ficou ao lado do pai nos momentos finais, sua mãe tava tão abalada que não quis aparecer assim na frente do marido. Achava desrespeitoso, egoísta de sua parte chorar na frente de um guerreiro.

Sabendo que seu pai estava moribundo, Roberto decidiu falar do orgulho que sentia dele, de como tinha aprendido com ele a manter a dignidade, mesmo nas piores situações. O pai ficou só ouvindo, já não tinha muitas forças, tava cansado. Roberto continuou seu discurso dizendo que o pai era um exemplo para todos e que sua força era admirável. Chorou e decidiu se calar.

Ficou surpreso ao ver que o moribundo juntou energia e começou a se levantar lentamente, com os olhos vermelhos e uma expressão contida de dor. Roberto me disse que, nesse rápido momento, pensou novamente no quanto era digno seu pai.

Quando conseguiu se sentar no leito, o velho abriu a boca e susurrou algumas palavras. Roberto não conseguiu ouvir e se aproximou. A mão de seu pai se ergueu e encostou no colarinho do meu amigo, num jesto que pareceu de afetuosidade.

De repente, essa mesma mão o segurou com força e a voz do pai saiu mais nítida, só que bem rouca. Ele disse algo do tipo: "Seu idiota, você acha que eu não sofri? Você acha que eu não queria um carinho, um afago de ninguém, que eu realmente gostava do silêncio de vocês? Vocês tornaram tudo mais difícil pra mim, eu fiquei sozinho com a minha doença. Vão à merda com essa tal dignidade".

Depois disso ele morreu. Então, não é engraçado? É irônico pelo menos.

O quê? Ah, o que aconteceu com o Roberto? Continuou a vida dele, só que com um medo danado de ficar doente. Chegou a ficar internado numa clínica psiquiátrica um tempo, achava que tava sempre doente. É a vida.

- Pronto, a conta tá paga. Vamos embora.

domingo, 4 de julho de 2010

Celular: telefone sem fio

Eu ouço a chamada e fico cada vez mais nervoso. Nervoso, confuso. Confuso é a melhor palavra. Todos os sentimentos dos quais falamos se tornam vagos nas palavras. Confusão é certeiro.
Ninguém atende e eu tento novamente. Mil imagens se misturam, uma história editada sem nexo em minha cabeça. Beijos, abraços, alegrias, tristezas, indiferenças, sol e mar, sombras da noite, tudo num par, tudo com um par. Mil imagens, mil histórias, melhor assim. Recortes vividos, fechados em si; células. Talvez esse seja um drama.
Máquina-de-separar, a agulha entra fundo e sangra. “Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens”. Tento novamente. Tatuagem invisível, marca de solidão. Instabilidade microcelular. Palpitações, suores, revolução. Eu queria ouvir vozes, apenas uma voz. “Sua chamada está...”, não esta. Aquela:

“Te amo”.

O som repetitivo não me incomoda. Discando, chamando, música eletrônica, trance. Transe eletrônico. Várias transas, olhares apaixonados, fiapos, retalhos. Uma caixa de mensagens, a memória. “Após o sinal” não há nada, só a reverberação de mim mesmo. Ar sinistro. Respiro fundo e disco novamente.
Não faz mais diferença se atende, ou não. Meus olhos estão embaçados, a boca seca. Pavlov insaciado, devoro-me. O telefone faz um pedido desesperado de acolhimento. Não há fio, não há laço que nos prenda. Não sei se há alguém vendo este pedido. O aparelho pode estar piscando num quarto escuro. Estou num lugar escuro e estranho. Estranheza do inumano, do que não medeia, do que reparte.

Desisto, boto o celular para recarregar a bateria.

“Sua chamada...”, só isso permanece. Pelo menos é algo que ainda posso chamar de meu.

Pirandello

"O aspecto trágico da vida está precisamente nessa lei a que o homem é forçado a obedecer, a lei que o obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é um imperativo necessário. E é essa escolha que organiza a nossa harmonia individual, o sentimento de nosso equilíbrio moral. É ela que constitui a tragédia e que faz com que os meus dramas não sejam simples farsas. Eles apresentam uma lei de sacrifício: o sacrifício da multidão de vidas que poderíamos viver e que, no entanto, não vivemos".