domingo, 23 de maio de 2010

Máscaras Gregas

Passa o lápis nos olhos e sai para a festa. Na pista abarrotada, o som alto te ensurdece; todos estão mudos. Quer sentir gente ao seu lado, quer alegra-se diante dos outros. Só que as pessoas neste lugar usam máscaras gregas sorridentes. Os rostos estão escondidos, e isso te entristece. Sua vista umedece, tudo que enxerga torna-se borrão, um rio de amargura escorre pelo blush de sua pele. Seriam lágrimas reais, salgadas? Ou apenas ilusórias, maquiadas?
Todos se mexem sem parar. Chamam isso de dança. Você também chamava. O que mudou? Quando entrou aqui pela primeira vez, era a mesma menina de sempre. Agora anda em meio aos outros, os indefinidos outros, caminha e esbarra, ombros e mãos. Todos se batem. Simplesmente não vê sentido nessas coisas. Coisas? São pessoas, apenas pessoas em busca do que o mundo sempre almejou e que espera ter, um dia, no futuro.
Calafrios. Lembra-se desta pista, da noite em que o som tocava aquela música, igual a todas as outras, sem letra, sem voz, sem instrumentos, e você ali no meio, misturada, apagada, as coxas roçando nas pernas de um sem-nome, os braços erguidos como em reverência a um Deus que não existe mais. Deus que parece próximo, contudo, assim como o Diabo. Diabo que paira junto ao seu ombro e justifica seus pecados.
Cada batida da bateria ilusória movendo seu corpo, sim, se lembra, nunca se sentiu tão viva, tão livre. Até que os lábios de seu par inonimado encostaram-se nos seus, braços fortes a envolveram e você, por um instante, pôde se entregar. Não o fez. Desvencilhou-se com igual violência e se perguntou sobre a razão daquele exagero, daquele abuso. "Eu estava só me divertindo". Sua mão macia não acariciava, apenas se movia ao andar do ritmo. Seus seios se enrijeciam, mas não por causa do sem-nome. Hoje entende que ele era apenas um espectro. como todos os outros.

Ao voltar a este lugar, tudo é estranho. Tudo se tornou estranho. Tudo se resume a esta pista.

Toda a vida que leva cabe aqui. Os fantasmas pululam na luz cambiante e por entre a fumaça que a cerca. "Será que sou apenas essa imagem frouxa?" Chora suas lágrimas maquiadas. Ninguém a vê. "Eu não existo", sentencia. Vira-se e vai embora, mais uma sombra que se move por entre chamas fugidias. Você não é, assim como Deus e Diabo nunca foram, nem serão no futuro próximo. Todos apenas esperam o dia que serão reconhecidos pela esperança de existir, mesmo que numa lágrima fortuita... Fortuita como um beijo desapegado.

sábado, 8 de maio de 2010

Evolução Tecnológica

As internets estão ligadas. Os Macromedias carregam e os olhos piscam os firewalls habilitados. O celular toca e as mãos correm em velocidade banda larga para atendê-lo. Não é chamada, apenas mensagem.

"So pra dar um oi e mandar bjs! :)"

Ela mora num prédio gradeado de esquina, a alguns quarteirões de distância. Poucos metros de cabo. Já não a vejo há alguns dias. Fez um logoff estratégico, tendo em vista a maximização de meu interesse por ela. Quer que eu a procure. Quer que eu aperte o botão verde de meu Motorola e faça pulsar a linha que nos separa, de corpo a corpo. Não percorro tais caminhos. Ela vai acabar fazendo um download até aqui, não é boba. Enquanto isso, me atualizo.

Bato um chat com amigos e envio youtubes aos tubos para que eles riam. Tudo animado por rsrsrsrsrsrsrs. Orkuto em busca de segredos alheios; ainda é cedo para dormir. Ela me espera em casa, talvez um upload até a praia, troca rápida de alguns files num banquinho mal iluminado qualquer, mas prefiro fuçar seus scraps e procurar indícios de algum trojan interessado na mulher alheia. Já disse a ela para colocar um "namorando" no perfil, mas gosta de me provocar spams com sua teimosia, diz que "ainda não é o momento".

Tenho muitos fãs e amigos. Preciso apenas me logar para vê-los. Conecto a buffer e assisto mídias em meu player. Mídias de bandas famosas, inclusive daquela que veio a minha cidade na semana passada. Não sei porque não fui ao show. Devo ter algum arquivo corrompido na minha cabeça.

Será que ela quer que eu vá até lá realmente? É noite de Domingo, amanhã tem aula cedo. Televisiono a situação. Melhor não. A pior coisa que existe é fazê-las achar que somos mouses em suas mãos. Não quero dar um demo de minhas fragilidades. Outro dia me disse que tinha sonhado comigo. Dei uma skype e mudei de assunto. É definitivo: não dou testimonials de meus sentimentos. Eles não são sharewares.

Tiro uma photoshop com a webcam bem alegrinha. Faço careta e dou tchauzinho. Retoco as imperfeições. Anexo a um email dizendo: "Amanhã nos vemos. Bjinhos, bonitinha!". Aperto o send e lá vai. Minhas pernas não cansam com essa viajem. É hora de dormir. Deixo o pc descansar e me deito na cama.

O celular pisca na escuridão do meu room e vibra longe. Deve ser ela. Continuo deitado. Por hoje é só, "amanhã nos vemos". Sinto megabytes de amor e, sorrinho, caio em modo sleep, tranquilo. O telefone desiste e silencia.

"Bjinhos, bonitinha".

E desconecto.