sábado, 26 de junho de 2010
Política desejante
"Política e desejo estão colocados, nesta perspectiva capitalística, como termos que se excluem, que estão em campos absolutamente distantes. Esta separação cumpre um papel importante, pois estabelece uma oposição de economias - a da política e a do desejo -, criando partidários que saem em defesa de cada um desses territórios, acusando um ao outro de estarem sendo redutores em suas análises e estratégias de transformação. (...) Manter a dicotomia das economias (política e sexual) serve, portanto, à manutenção de territórios endurecidos e perpetuados, que se impermebializam aos devires, à alteridade, à diferença. Em seu lugar poderíamos pensar em uma política desejante, em um desejo político, pois ambos, ao se constituírem em um plano de imanência, estão funcionando não por teleologias - com critérios definidos a priori -, mas pelo encontro com fluxos heterogêneos que, em sua diferença, exigem transformação. (...) ao desejo não falta nada. Se desejo é máquina, o objeto do desejo é secretado por esta máquina".
sábado, 12 de junho de 2010
"Contracanto" e microconto
É em vão que tua imagem chega em meu encontro
E não me entra onde estou, que mostra-a apenas
Voltando-te para mim só poderias achar
Na parede do meu olhar tua sombra sonhada.
Eu sou este infeliz comparável aos espelhos
Que podem refletir mas que não podem ver
Como eles meu olho é vazio e como eles habitado
Pela ausência de ti que faz sua cegueira.
Aragon
-----------------------------------------------------------------------------
Quero que abra a porta e seus olhos sorriam porque enxergam o melhor em mim.
E não me entra onde estou, que mostra-a apenas
Voltando-te para mim só poderias achar
Na parede do meu olhar tua sombra sonhada.
Eu sou este infeliz comparável aos espelhos
Que podem refletir mas que não podem ver
Como eles meu olho é vazio e como eles habitado
Pela ausência de ti que faz sua cegueira.
Aragon
-----------------------------------------------------------------------------
Quero que abra a porta e seus olhos sorriam porque enxergam o melhor em mim.
domingo, 6 de junho de 2010
Nietzsche
"Quem adivinha, ao menos em parte as conseqüências de toda profunda suspeita, os calafrios e angústias do isolamento, a que toda incondicional diferença de olhar condena quem dela sofre, compreenderá também com que freqüência, para me recuperar de mim, como para esquecer-me temporariamente, procurei abrigo em algum lugar – em alguma adoração, alguma inimizade, leviandade, cientificidade ou estupidez; e também por que, onde não encontrei o que precisava, tive de obtê-lo à força do artifício, de falsificá-lo e criá-lo poeticamente para mim (- que outra coisa fizeram sempre os poetas? Para que serve toda a arte que há no mundo?). Mas o que sempre necessitei mais urgentemente, para minha cura e restauração própria, foi a crença de não ser de tal modo solitário, de não ver assim solitariamente – uma mágica intuição de semelhança e afinidade de olhar e desejo, um repousar na confiança da amizade, uma cegueira a dois sem interrogação nem suspeita, uma fruição de primeiros planos, de superfícies, do que é próximo e está perto, de tudo o que tem cor, pele e aparência".
quinta-feira, 3 de junho de 2010
A Maldição do Romântico (ou o medo do incontrolável)
As flores murcharam. Suas pétalas enegreceram e enrugaram. Toquei a campainha da casa. Instantes depois, ela abriu a porta; já me esperava. Moveu-se para beijar-me, impulso que veio de seu amor. Esquivei-me. Eu tenho esse poder.
Avisei que não entraria, pois não pretendia demorar; a chuva estava chegando. Disse que não podia vê-la mais e que torcia para que ela fosse muito feliz. Pedi desculpas por arruinar o seu jardim.
- Que jardim, que chuva? O céu está limpo, não há nenhuma nuvem!
Tentei sorrir, mas não consegui. Sua ingenuidade me fascinava. Convivemos pouco tempo, apesar de intensamente, e ela não sabia ainda que eu tinha poderes. Expliquei que conseguia mudar o clima e que as flores morriam por onde eu passava. Confessei que podia arrefecer o amor mais cálido. Olhei para trás e vi todas as rosas destruídas.
- Não há nada de errado com as flores, tem certeza de que não quer entrar? Estou preocupada. Que papo é esse de poderes? Essa é uma das histórias que você anda escrevendo?
Ela tentou encostar sua mão no meu rosto, mas consegui desviar, por sorte. Não pude evitar a emoção e, chorando, contei que tentara fazer o Sol nascer radiante naqueles poucos dias. Mas fora em vão. Desisti. Ela me olhou triste, como nunca havia feito antes. Queria dizer algo, mas não conseguia. Isso acontecia porque eu já tinha tirado de dentro dela tudo o que sentia por mim. Guardava nos bolsos da calça; estava pesado.
- Não diga essas coisas, eu...
Cortei sua fala e despedi-me. Dei as costas para ela e andei rápido para longe. Parei numa esquina, junto a uma barraquinha de flores. Comprei sementes de rosas. Apontei para algumas margaridas mortas e pedi desculpas ao vendedor pelo prejuízo causado. No céu, as nuvens ficavam mais escuras. Precisava correr para não me molhar, porém não apertei o passo. Caminhei lentamente, deixando que a névoa me envolvesse...
O temporal caiu, peguei um pouco de terra molhada de um canteiro que arrasei no caminho. Cheguei em casa, peguei um vaso e o preenchi com a terra úmida, misturei ao amor que estava nos meus bolsos e plantei as sementes. Coloquei o recipiente próximo à janela.
Agora era tentar fazer com que o Sol aparecesse no dia seguinte. Talvez assim as flores desabrochassem, livres de minha maldição.
Avisei que não entraria, pois não pretendia demorar; a chuva estava chegando. Disse que não podia vê-la mais e que torcia para que ela fosse muito feliz. Pedi desculpas por arruinar o seu jardim.
- Que jardim, que chuva? O céu está limpo, não há nenhuma nuvem!
Tentei sorrir, mas não consegui. Sua ingenuidade me fascinava. Convivemos pouco tempo, apesar de intensamente, e ela não sabia ainda que eu tinha poderes. Expliquei que conseguia mudar o clima e que as flores morriam por onde eu passava. Confessei que podia arrefecer o amor mais cálido. Olhei para trás e vi todas as rosas destruídas.
- Não há nada de errado com as flores, tem certeza de que não quer entrar? Estou preocupada. Que papo é esse de poderes? Essa é uma das histórias que você anda escrevendo?
Ela tentou encostar sua mão no meu rosto, mas consegui desviar, por sorte. Não pude evitar a emoção e, chorando, contei que tentara fazer o Sol nascer radiante naqueles poucos dias. Mas fora em vão. Desisti. Ela me olhou triste, como nunca havia feito antes. Queria dizer algo, mas não conseguia. Isso acontecia porque eu já tinha tirado de dentro dela tudo o que sentia por mim. Guardava nos bolsos da calça; estava pesado.
- Não diga essas coisas, eu...
Cortei sua fala e despedi-me. Dei as costas para ela e andei rápido para longe. Parei numa esquina, junto a uma barraquinha de flores. Comprei sementes de rosas. Apontei para algumas margaridas mortas e pedi desculpas ao vendedor pelo prejuízo causado. No céu, as nuvens ficavam mais escuras. Precisava correr para não me molhar, porém não apertei o passo. Caminhei lentamente, deixando que a névoa me envolvesse...
O temporal caiu, peguei um pouco de terra molhada de um canteiro que arrasei no caminho. Cheguei em casa, peguei um vaso e o preenchi com a terra úmida, misturei ao amor que estava nos meus bolsos e plantei as sementes. Coloquei o recipiente próximo à janela.
Agora era tentar fazer com que o Sol aparecesse no dia seguinte. Talvez assim as flores desabrochassem, livres de minha maldição.
Assinar:
Postagens (Atom)