quinta-feira, 3 de junho de 2010

A Maldição do Romântico (ou o medo do incontrolável)

As flores murcharam. Suas pétalas enegreceram e enrugaram. Toquei a campainha da casa. Instantes depois, ela abriu a porta; já me esperava. Moveu-se para beijar-me, impulso que veio de seu amor. Esquivei-me. Eu tenho esse poder.

Avisei que não entraria, pois não pretendia demorar; a chuva estava chegando. Disse que não podia vê-la mais e que torcia para que ela fosse muito feliz. Pedi desculpas por arruinar o seu jardim.

- Que jardim, que chuva? O céu está limpo, não há nenhuma nuvem!

Tentei sorrir, mas não consegui. Sua ingenuidade me fascinava. Convivemos pouco tempo, apesar de intensamente, e ela não sabia ainda que eu tinha poderes. Expliquei que conseguia mudar o clima e que as flores morriam por onde eu passava. Confessei que podia arrefecer o amor mais cálido. Olhei para trás e vi todas as rosas destruídas.

- Não há nada de errado com as flores, tem certeza de que não quer entrar? Estou preocupada. Que papo é esse de poderes? Essa é uma das histórias que você anda escrevendo?

Ela tentou encostar sua mão no meu rosto, mas consegui desviar, por sorte. Não pude evitar a emoção e, chorando, contei que tentara fazer o Sol nascer radiante naqueles poucos dias. Mas fora em vão. Desisti. Ela me olhou triste, como nunca havia feito antes. Queria dizer algo, mas não conseguia. Isso acontecia porque eu já tinha tirado de dentro dela tudo o que sentia por mim. Guardava nos bolsos da calça; estava pesado.

- Não diga essas coisas, eu...

Cortei sua fala e despedi-me. Dei as costas para ela e andei rápido para longe. Parei numa esquina, junto a uma barraquinha de flores. Comprei sementes de rosas. Apontei para algumas margaridas mortas e pedi desculpas ao vendedor pelo prejuízo causado. No céu, as nuvens ficavam mais escuras. Precisava correr para não me molhar, porém não apertei o passo. Caminhei lentamente, deixando que a névoa me envolvesse...

O temporal caiu, peguei um pouco de terra molhada de um canteiro que arrasei no caminho. Cheguei em casa, peguei um vaso e o preenchi com a terra úmida, misturei ao amor que estava nos meus bolsos e plantei as sementes. Coloquei o recipiente próximo à janela.

Agora era tentar fazer com que o Sol aparecesse no dia seguinte. Talvez assim as flores desabrochassem, livres de minha maldição.

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