Eu ouço a chamada e fico cada vez mais nervoso. Nervoso, confuso. Confuso é a melhor palavra. Todos os sentimentos dos quais falamos se tornam vagos nas palavras. Confusão é certeiro.
Ninguém atende e eu tento novamente. Mil imagens se misturam, uma história editada sem nexo em minha cabeça. Beijos, abraços, alegrias, tristezas, indiferenças, sol e mar, sombras da noite, tudo num par, tudo com um par. Mil imagens, mil histórias, melhor assim. Recortes vividos, fechados em si; células. Talvez esse seja um drama.
Máquina-de-separar, a agulha entra fundo e sangra. “Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens”. Tento novamente. Tatuagem invisível, marca de solidão. Instabilidade microcelular. Palpitações, suores, revolução. Eu queria ouvir vozes, apenas uma voz. “Sua chamada está...”, não esta. Aquela:
“Te amo”.
O som repetitivo não me incomoda. Discando, chamando, música eletrônica, trance. Transe eletrônico. Várias transas, olhares apaixonados, fiapos, retalhos. Uma caixa de mensagens, a memória. “Após o sinal” não há nada, só a reverberação de mim mesmo. Ar sinistro. Respiro fundo e disco novamente.
Não faz mais diferença se atende, ou não. Meus olhos estão embaçados, a boca seca. Pavlov insaciado, devoro-me. O telefone faz um pedido desesperado de acolhimento. Não há fio, não há laço que nos prenda. Não sei se há alguém vendo este pedido. O aparelho pode estar piscando num quarto escuro. Estou num lugar escuro e estranho. Estranheza do inumano, do que não medeia, do que reparte.
Desisto, boto o celular para recarregar a bateria.
“Sua chamada...”, só isso permanece. Pelo menos é algo que ainda posso chamar de meu.
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"Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens...". Quem nunca se angustiou ouvindo isso em algum momento, quando se queria, na verdade, apenas ouvir a voz de alguém especial?
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