- Vamos lá, deixa eu contar mais uma antes de ir. Tá tarde, eu sei, mas é rápida. Alguém pede a saidera pra fechar a conta.
- Prestem atenção que essa é ótima. É engraçada como as outras, mas é meio bizarra também.
Eu tenho um amigo, o Roberto, nenhum de vocês conhece ele. Nós estudamos juntos no colégio, mantivemos a amizade por muito tempo depois disso. Não tenho tido notícias dele ultimamente.
O pai dele ficou doente, um câncer brabo no intestino que se espalhou depois. Todos na família ficaram desolados, o próprio Roberto ficou chocado quando soube, mas seu pai parecia não se abalar com a doença. Fez tudo que o médico recomendou. Fez quimioterapia, um monte de operações, várias mesmo. Só que mantinha aquela postura, continou trabalhando por muito tempo, fazendo suas obrigações normalmente, dentro do possível.
Isso era tão impressionante que os próprios familiares e amigos não se permitiam tocar o assunto com ele. As coisas foram caminhando, ele foi ficando mais fraco, até que foi hospitalizado de vez. Próximo do fim, recebeu várias visitas, todos tentavam manter-se inabaláveis em sua frente, como sinal de respeito.
- Chegou a cerveja e a conta, alguém calcula quanto deu pra cada um. Vou continuar.
Roberto ficou ao lado do pai nos momentos finais, sua mãe tava tão abalada que não quis aparecer assim na frente do marido. Achava desrespeitoso, egoísta de sua parte chorar na frente de um guerreiro.
Sabendo que seu pai estava moribundo, Roberto decidiu falar do orgulho que sentia dele, de como tinha aprendido com ele a manter a dignidade, mesmo nas piores situações. O pai ficou só ouvindo, já não tinha muitas forças, tava cansado. Roberto continuou seu discurso dizendo que o pai era um exemplo para todos e que sua força era admirável. Chorou e decidiu se calar.
Ficou surpreso ao ver que o moribundo juntou energia e começou a se levantar lentamente, com os olhos vermelhos e uma expressão contida de dor. Roberto me disse que, nesse rápido momento, pensou novamente no quanto era digno seu pai.
Quando conseguiu se sentar no leito, o velho abriu a boca e susurrou algumas palavras. Roberto não conseguiu ouvir e se aproximou. A mão de seu pai se ergueu e encostou no colarinho do meu amigo, num jesto que pareceu de afetuosidade.
De repente, essa mesma mão o segurou com força e a voz do pai saiu mais nítida, só que bem rouca. Ele disse algo do tipo: "Seu idiota, você acha que eu não sofri? Você acha que eu não queria um carinho, um afago de ninguém, que eu realmente gostava do silêncio de vocês? Vocês tornaram tudo mais difícil pra mim, eu fiquei sozinho com a minha doença. Vão à merda com essa tal dignidade".
Depois disso ele morreu. Então, não é engraçado? É irônico pelo menos.
O quê? Ah, o que aconteceu com o Roberto? Continuou a vida dele, só que com um medo danado de ficar doente. Chegou a ficar internado numa clínica psiquiátrica um tempo, achava que tava sempre doente. É a vida.
- Pronto, a conta tá paga. Vamos embora.
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Às vezes a palavra mais atrapalha que ajuda, mas até para saber sobre, é preciso falar! rs
ResponderExcluirBeijos, Rafa, continue as escrivinhanças!
Lu
Assuntos velados, tabus...e tudo na melhor das intenções, é claro! Estamos poupando o outro ou a nós mesmos?
ResponderExcluirEscuta, não some daqui não.
Beijos!
De algum modo seu texto e o meu tem sim pontos em comum, mas não vou fazer um ensaio aqui sobre isso. Hahaha.
ResponderExcluirAbraço Rafael.