Passa o lápis nos olhos e sai para a festa. Na pista abarrotada, o som alto te ensurdece; todos estão mudos. Quer sentir gente ao seu lado, quer alegra-se diante dos outros. Só que as pessoas neste lugar usam máscaras gregas sorridentes. Os rostos estão escondidos, e isso te entristece. Sua vista umedece, tudo que enxerga torna-se borrão, um rio de amargura escorre pelo blush de sua pele. Seriam lágrimas reais, salgadas? Ou apenas ilusórias, maquiadas?
Todos se mexem sem parar. Chamam isso de dança. Você também chamava. O que mudou? Quando entrou aqui pela primeira vez, era a mesma menina de sempre. Agora anda em meio aos outros, os indefinidos outros, caminha e esbarra, ombros e mãos. Todos se batem. Simplesmente não vê sentido nessas coisas. Coisas? São pessoas, apenas pessoas em busca do que o mundo sempre almejou e que espera ter, um dia, no futuro.
Calafrios. Lembra-se desta pista, da noite em que o som tocava aquela música, igual a todas as outras, sem letra, sem voz, sem instrumentos, e você ali no meio, misturada, apagada, as coxas roçando nas pernas de um sem-nome, os braços erguidos como em reverência a um Deus que não existe mais. Deus que parece próximo, contudo, assim como o Diabo. Diabo que paira junto ao seu ombro e justifica seus pecados.
Cada batida da bateria ilusória movendo seu corpo, sim, se lembra, nunca se sentiu tão viva, tão livre. Até que os lábios de seu par inonimado encostaram-se nos seus, braços fortes a envolveram e você, por um instante, pôde se entregar. Não o fez. Desvencilhou-se com igual violência e se perguntou sobre a razão daquele exagero, daquele abuso. "Eu estava só me divertindo". Sua mão macia não acariciava, apenas se movia ao andar do ritmo. Seus seios se enrijeciam, mas não por causa do sem-nome. Hoje entende que ele era apenas um espectro. como todos os outros.
Ao voltar a este lugar, tudo é estranho. Tudo se tornou estranho. Tudo se resume a esta pista.
Toda a vida que leva cabe aqui. Os fantasmas pululam na luz cambiante e por entre a fumaça que a cerca. "Será que sou apenas essa imagem frouxa?" Chora suas lágrimas maquiadas. Ninguém a vê. "Eu não existo", sentencia. Vira-se e vai embora, mais uma sombra que se move por entre chamas fugidias. Você não é, assim como Deus e Diabo nunca foram, nem serão no futuro próximo. Todos apenas esperam o dia que serão reconhecidos pela esperança de existir, mesmo que numa lágrima fortuita... Fortuita como um beijo desapegado.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
ei Rafa! quanta intensidade nesse texto! angústias de um mundo volátil...
ResponderExcluircontinue escrevendo!! bjs!!
Gosto bastante desse...
ResponderExcluir